14 March 2015

Transportes na India!









Andar de transportes públicos na Índia é uma aventura. Mas não apenas pela ideia de perigo ou falta de higiene, como me tinham dito. Parece que os turistas ocidentais quando contam histórias da Índia só se lembram das partes negativas que associão a cada situação. Eu também vejo isso tudo, claro, mas prefiro observar o que há de mais interessante. Simplesmente por ser tudo tão diferente!! E também porque, se assim não fizesse, fartar-me-ia da Índia em menos de nada. A verdade é que este país tem tanto de belo como de deplorável e continua a ser-me difícil decidir se é um lugar “bonito” ou “horrível”, “bom para viajar” ou“nojento”, “interessante” ou “para manter à distância”. Mas este é tema mas um futuro relato.
Agora, voltando aos transportes públicos... Eu adoro estações! Em qualquer país. Sempre adorei aeroportos e terminais. Sobretudo os terminais ferroviários costumam dar-me a sensação de limbo. Um espaço onde tudo e nada acontece, tudo muda mas nada sai do mesmo lugar. Os comboios vão e vêm com passageiros diferentes em cada percurso, mas ainda assim não deixam de ser os mesmos comboios, as mesmas carruagens, os mesmos bancos, as mesmas janelas e os mesmos sons. Os carris aquecem e emanam a perigo. E são eles os mesmos carris que alguém colocou há tanto tempo atrás aquando da sua construção. E são eles os carris que se falassem teriam tanto para contar... E, porém, não o fazem!
Oh! É claro que barcos e autocarros não deixam de ter a sua magia. E aeroportos. Durante os últimos anos gostei de poder visitar o Aeródromo do Estoril com alguma regularidade. Mais uma vez, nada acontece mas tudo se passa. Não há grande coisa para fazer num lugar destes mas têm sempre uma energia especial.
Em qualquer estação, de qualquer meio de transporte, poderia passar horas a observar aviões, comboios ou autocarros a chegar e a partir, pessoas a chorar numa despedida de "até sempre" ou a sorrir em género de "até logo", trabalhadores fardados, painéis informativos... Painéis informativos que expõem algo sobre uma viagem que ainda está para acontecer, sobre momentos que ainda estão para ser vividos e que, no entanto, não deixam de ser um ciclo daquilo que já aconteceu antes, do que acontece agora, do que irá sempre acontecer. Momentos com uma intensidade para lá das palavras que se perdem no tempo mas que ficam para sempre guardados nestes espaços. Sempre que alguém precisa ou deseja deslocar-se de um lugar para outro, de uma cidade para outra, de um país para outro. Puxa-se um trolley ou carrega-se uma encomenda, solta-se uma lágrima e um aceno, soam vários apitos, e mais uma jornada está prestes a ser cumprida.
Aqui na Índia estes lugares têm algo de diferente. Já andei em quatro autocarros de longa distância, dois durante o dia e dois nocturnos - sendo que um deles tinha camas e havia sido reservado através de uma agência de viagens, e os outros eram muito mais simples e estilo "hop on, hop off". Nas estações ouvia-se o ruído dos motores a ligar e a desligar, e também os homens. Os "picas"! Enquanto o motorista come, descansa ou vai à casa-de-banho, são os picas que “ficam de olho” no autocarro e gritam insistentemente o nome da cidade para onde estão prestes a dirigir-se. Talvez até sejam embirrantes e barulhentos, mas a verdade é que estes são os únicos sons que se ouvem num terminal de autocarros local de uma cidade qualquer do sul da Índia.

















Sento-me no meu autocarro à espera da hora de partir e lembro-me de como tudo é diferente no nosso mundo ocidental. Vem-me à memória o terminal de autocarros de Sete Rios - de onde já parti em diferentes viagens, vezes sem conta. Ou a estação de comboios central, em Milão, onde passei muitas horas, não há muito tempo. Também os aeroportos europeus ou o terminal internacional de Kings Cross me são tão familiares... e, embora me refira a tantos países diferentes, todos eles tem o mesmo tipo de magia. Algo que me inspira mas que simultaneamente me faz sempre sentir em casa por ser tão semelhante, onde quer que vá (pelo menos na Europa)!
Por outro lado, na Índia não me sinto em casa, nem me sinto confortável. Sinto a falta da agitação das estações e terminais a que estou habituada... esses locais onde o ruído é tanto que nos esquecemos de nos ouvir uns aos outros. Onde se ouvem muitos sons mas, ao mesmo tempo, nada! Aqui é ao contrário, ouve-se tudo. E tudo muito alto, porque a variedade sonora é pouca. Em vez de televisões ou quaisquer aparelhos electrónicos tanto para a venda de bilhetes como para o anúncio das partidas e chegadas, e até para informações de outro teor, aqui há pessoas aos gritos. Se eu estivesse na ler este post, isso far-me-ia pensar no caos que do que tento retratar... mas a verdade é que nao o é! Porque apesar de tudo, aqui não há a confusão de lojas de roupa, papelarias, restaurantes; nem empregados da limpeza a circular por toda a parte. Também não há dez televisões acesas em dez canais diferentes, nem música ambiente, nem outras músicas ambiente vindas de cada espaço comercial, nem anúncios nos altifalantes...






10 March 2015

The Temple Town




Quando me falaram em Thiruvannamalai, eu imaginei calma e paz. Imaginei pessoas a caminhar descalças pelas ruas de terra batida. Imaginei templos, muitos templos. É um lugar sagrado e ouvem-se histórias sobre a devoção que se tem à grande montanha de Thiru. A propósito, “Thiru” significa respeito!
Antes de aqui chegar, eu pensei que ia encontrar uma vila pequena e pouco movimentada, onde a maioria dos habitantes e visitantes dispenderia grande parte do seu tempo a meditar num dos vários ashrams, a contemplar os templos ou a admirar a paisagem que a montanha oferece.



















09 March 2015

Maamallapuram | What a paradise!!?





Adorei este lugar assim que saí do autocarro. Cheirava a mar! E era tudo o que eu precisava depois de uma semana desafiante no centro de meditação de Chennai. O caminho desde o autocarro até ao Bob Marley Cafe & Beach House não custou a fazer, apesar da mochila já estar um pouco mais pesada... Segui o Jack até lá porque era "a casa de um amigo". Ele tinha ficado neste hostel durante uns dias, depois de ter entrado em contacto com o proprietário através da plataforma "couch surfing". Desta vez não ficámos de graça - afinal trata-se de um negócio! - mas tivemos alguns privilégios. Como forma de agradecimento, enquanto o Jack preparava alguns cocktails para outros hóspedes e funcionários, eu pus-me a pintar uma das paredes do último andar... :)






Maamallapuram é uma vila de pescadores. E, como todas as vilas de pescadores, é fantástica! Nada como as grandes cidades da India. Aqui as pessoas sorriem e quando pedimos qualquer tipo de ajuda ninguém nos vira a cara. A verdade é que na sua grande maioria, os habitantes de Maamallapuram, vivem do turismo. E, talvez por isso, ao longo do tempo viram-se obrigados a adptar-se à convivência com "pessoas brancas" e ao facto (real!) de que os turistas só vão querer ficar em (ou voltar a) lugares onde se sentem bem acolhidos. Mais uma vez, tal como em Auroville, aqui há imensos turistas e pessoas brancas. Mas também há muitos indianos por isso sente-se um pouco mais da India. E parece que os franceses tomaram mesmo conta deste lado da costa (enquanto os portugueses estão do outro lado!), porque apesar do francês não ser a língua oficial, dou por mim a ser saudada com um "Bonjour" daqui ou dali todos os dias. E o facto de andar pela rua com um francês também não ajuda a fazê-los perceber que na verdade sou portuguesa e o meu francês é dos mais básicos (embora já consiga entender o Jack, sempre que se chateia com o inglês e eu lhe digo para tentar explicar em francês instead).













No nosso primeiro dia enquanto turistas, fomos ao Shore Temple. 10 rupias para Indianos e 250 rupias para estrangeiros. Quase apetece dizer que venho do norte da India, mas não consigo mesmo enganar ninguém! A começar pela forma como me visto, passando pela minha cor e depois, é claro, o sotaque que tenho quando falo inglês. Mas apesar da sua beleza incontestável, este templo à beira mar não vale de todo o preço. Claro que para nós não deixa de ser barato, mas a verdade é que tento em conta os standards (e o budget diário de um viajante), o valor do bilhete de entrada torna-se ridículo. E ainda um pouco mais depois de andarmos 10 metros a partir do portão e percebermos que se quisermos ir à casa-de-banho teremos de voltar a pagar qualquer coisa... Sempre ouvi dizer que os indianos sabem fazer negócio. E a verdade é que sabem mesmo! Não é por nada que se diz que aqui temos de negociar TUDO. Por muito em conta que nos possa parecer qualquer produto ou serviço, este terá sempre uma taxa de mais de 200% quando lhes cheira a dinheiro/cliente internacional.  
De qualquer modo, e apesar de corroído pelo mar salgado, Shore Temple é muito bonito, tanto visto de longe - a partir da praia, com o mar a bater na encosta que o suporta - como de perto. É uma construção do século VII, dedicada a Shiva e considerada como Património Mundial pela UNESCO.













Maamallapuram inspira-me... para começar, como já disse, cheira a mar! E o sol está quente mas ainda não está insuportável. Para eles pode ainda ser "Outono", mas para mim não podia estar mais perfeito. Esta é exactamente a temperatura ideal, entre os 26 e os 30 graus, sem vento e pouca humidade!
Ao caminhar pelas ruas apetece-me experimentar tudo. Seja o que for que faça, sou uma verdadeira turista, quer dentro quer fora de casa. Se em Lisboa há dias em que me sinto como uma turista e não saio sem uma máquina fotográfica ao pescoço, aqui muito mais. Por todo o lado ouço o som de uma vaca a mugir ou sinto o cheiro da comida típica do sul da India. A parota, a dosa e o thali já me são familiares e não passa dia nenhum em que pelo menos uma das refeições que faço inclui um destes pratos. Mesmo sabendo que em lugares turísticos como este é tão fácil encontrar comida que "sabe a casa", prefiro continuar a deixar-me levar pelos sabores da India - que não deixam de me surpreender e (quase sempre) encantar! De qualquer modo, às vezes é confortável escolher um espaço com "ares de casa" (como este restaurante da fotografia abaixo, em oposição ao que viram na segunda fotografia deste poste... embora o preço da refeição seja cerca de quatro vezes mais elevado).




Como não podia deixar de ser, sempre que vejo uma livraria tenho de dar uma espreitadela. E qual não foi o meu espanto quando encontrei uma secção de livros em português!! Claro que fiz logo negócio e troquei um dos livros que já tinha lido por um novo.





Continuando a "tour" pelas atracções da cidade e arredores, lá fomos nós parar ao Mandras Crocodile Centre. Surpreendentemente, um dos maiores zoos de répteis do mundo e uma das primeiras organizações não governamentais da Ásia! Digo surpreendentemente porque na verdade não é assim tão grande... penso que em menos de uma hora vimos tudo o que havia para ver - sendo que demorámos mais tempo do que o normal porque parámos várias vezes para filmar e ver os tratadores alimentarem os crocodilos (algo que acontece apenas uma vez por semana!). 
Mas de facto a natureza é fantástica e não posso deixar de gabar estes animais. Esta uma visita incrível e completamente indispensável enquanto viajante por estes lados da India...


Sabias que... :)
- o sexo dos crocodilos depende da temperatura do ninho?
- os crocodilos são os únicos répteis que mostram cuidados paternais para com os seus filhotes?























Uma outra atracção de Maamallapuram é o Seashell Museum & Aquarium. Mas infelizmente eu decidi visitar apenas o aquário... a pensar que era muito mais interessante ver animais vivos do que uma colecção de conchas! Ora pois bem... qual não foi o meu desapontamento quando me abriram a porta de uma mini "loja de animais". Claro que não era uma loja de animais, era um museu. E, como o nome indica, só tinha animais marinhos. Ou, digo melhor, peixes! Num espaço de 3 metros quadrados e pequenos aquários em toda a volta, vi uma série de peixinhos lindíssimos... mas em menos de 5 minutos estava o "aquário" visto...












E claro que eu não podia estar cinco dias no mesmo sítio sem fazer nada por isso, assim que o dono do hostel falou em pintar paredes, fui a primeira a voluntariar-me! Ele queria um Bob Marley mas... vamos lá a conversar porque eu não sou artista :P E por isso foi isto que saiu. Eu desenhei e depois dei instruções ao Jack para pintar porque já estava a irritar-me com tantos olhos postos me mim. Mesmo em locais onde há tantos turistas, como é o caso desta cidade, os indianos de facto parece que nunca viram pele branca na vida! Foi por isso que, depois de fazer o contorno da India, um "wanna be" Taj Mahal, um elefante e umas quantas palavras, deixei os pinceis de lado por um bocado e fiquei a apreciar a paisagem até sentir que conseguia fazer mais qualquer coisa por esta obra de arte... ahah