Andar de transportes públicos na Índia é uma
aventura. Mas não apenas pela ideia de perigo ou falta de higiene, como me
tinham dito. Parece que os turistas ocidentais quando contam histórias da Índia
só se lembram das partes negativas que associão a cada situação. Eu também vejo
isso tudo, claro, mas prefiro observar o que há de mais interessante.
Simplesmente por ser tudo tão diferente!! E também porque, se assim não
fizesse, fartar-me-ia da Índia em menos de nada. A verdade é que este país tem
tanto de belo como de deplorável e continua a ser-me difícil decidir se é um
lugar “bonito” ou “horrível”, “bom para viajar” ou“nojento”, “interessante” ou
“para manter à distância”. Mas este é tema mas um futuro relato.
Agora, voltando aos transportes públicos... Eu
adoro estações! Em qualquer país. Sempre adorei aeroportos e terminais.
Sobretudo os terminais ferroviários costumam dar-me a sensação de limbo. Um
espaço onde tudo e nada acontece, tudo muda mas nada sai do mesmo lugar. Os
comboios vão e vêm com passageiros diferentes em cada percurso, mas ainda assim
não deixam de ser os mesmos comboios, as mesmas carruagens, os mesmos bancos,
as mesmas janelas e os mesmos sons. Os carris aquecem e emanam a perigo. E são
eles os mesmos carris que alguém colocou há tanto tempo atrás aquando da sua
construção. E são eles os carris que se falassem teriam tanto para contar... E,
porém, não o fazem!
Oh! É claro que barcos e autocarros não deixam de
ter a sua magia. E aeroportos. Durante os últimos anos gostei de poder visitar
o Aeródromo do Estoril com alguma regularidade. Mais uma vez, nada acontece mas
tudo se passa. Não há grande coisa para fazer num lugar destes mas têm sempre uma
energia especial.
Em qualquer estação, de qualquer meio de
transporte, poderia passar horas a observar aviões, comboios ou autocarros a
chegar e a partir, pessoas a chorar numa despedida de "até sempre" ou
a sorrir em género de "até logo", trabalhadores fardados, painéis
informativos... Painéis informativos que expõem algo sobre uma viagem que ainda
está para acontecer, sobre momentos que ainda estão para ser vividos e que, no
entanto, não deixam de ser um ciclo daquilo que já aconteceu antes, do que
acontece agora, do que irá sempre acontecer. Momentos com uma intensidade para
lá das palavras que se perdem no tempo mas que ficam para sempre guardados
nestes espaços. Sempre que alguém precisa ou deseja deslocar-se de um lugar
para outro, de uma cidade para outra, de um país para outro. Puxa-se um trolley ou carrega-se uma encomenda, solta-se
uma lágrima e um aceno, soam vários apitos, e mais uma jornada está prestes a
ser cumprida.
Aqui na Índia estes lugares têm algo de diferente.
Já andei em quatro autocarros de longa distância, dois durante o dia e dois
nocturnos - sendo que um deles tinha camas e havia sido reservado através de
uma agência de viagens, e os outros eram muito mais simples e estilo "hop on, hop off". Nas estações
ouvia-se o ruído dos motores a ligar e a desligar, e também os homens. Os
"picas"! Enquanto o motorista come, descansa ou vai à casa-de-banho,
são os picas que “ficam de olho” no autocarro e gritam insistentemente o nome
da cidade para onde estão prestes a dirigir-se. Talvez até sejam embirrantes e
barulhentos, mas a verdade é que estes são os únicos sons que se ouvem num
terminal de autocarros local de uma cidade qualquer do sul da Índia.
Sento-me no meu autocarro à espera da hora de partir
e lembro-me de como tudo é diferente no nosso mundo ocidental. Vem-me à memória
o terminal de autocarros de Sete Rios - de onde já parti em diferentes viagens,
vezes sem conta. Ou a estação de comboios central, em Milão, onde passei muitas
horas, não há muito tempo. Também os aeroportos europeus ou o terminal
internacional de Kings Cross me são tão familiares... e, embora me refira a
tantos países diferentes, todos eles tem o mesmo tipo de magia. Algo que me
inspira mas que simultaneamente me faz sempre sentir em casa por ser tão
semelhante, onde quer que vá (pelo menos na Europa)!
Por outro lado, na Índia não me sinto em casa, nem me sinto confortável. Sinto
a falta da agitação das estações e terminais a que estou habituada... esses
locais onde o ruído é tanto que nos esquecemos de nos ouvir uns aos outros.
Onde se ouvem muitos sons mas, ao mesmo tempo, nada! Aqui é ao contrário,
ouve-se tudo. E tudo muito alto, porque a variedade sonora é pouca. Em vez de
televisões ou quaisquer aparelhos electrónicos tanto para a venda de bilhetes
como para o anúncio das partidas e chegadas, e até para informações de outro
teor, aqui há pessoas aos gritos. Se eu estivesse na ler este post, isso far-me-ia pensar no caos que
do que tento retratar... mas a verdade é que nao o é! Porque apesar de tudo,
aqui não há a confusão de lojas de roupa, papelarias, restaurantes; nem
empregados da limpeza a circular por toda a parte. Também não há dez televisões
acesas em dez canais diferentes, nem música ambiente, nem outras músicas
ambiente vindas de cada espaço comercial, nem anúncios nos altifalantes...