O dia começa cedo, embora não tão cedo quanto a minha manhã habitual desde
que cheguei à Índia. Pelas sete horas estou a acordar no meu quarto da casa de
hóspedes Raghavendra Nilayam, numa pequena perpendicular à rua principal de Puttaparthi.
A ventoinha ficou ligada durante a noite toda porque, embora possa arrefecer
bastante, a temperatura antes de adormecer ainda era alta. Este mês de Março é
o início da estação mais quente do sul e já não consigo imaginar temperaturas
mais altas, mesmo quando todos os indianos com quem me cruzo me dizem que, mais
semana menos semana, teremos uma subida de cerca de 10 graus, até atingirmos
uma mínima de 40ºC. Sim, mínima... inacreditável!
Seja como for, ao acordar destapada e com as janelas ainda abertas, sinto
um ligeiro desconforto. Provavelmente o mesmo desconforto que provocou a
constipação que tive a meio da minha estadia na cidade.
Tomo um duche rápido e saio para o pequeno-almoço, que logo desde o início
teve muito poucas variantes. Portanto, o mais provável é que coma um pongal e
um batido de frutas variadas num dos restaurantes das Sai Towers – o hotel
mais
luxuoso da cidade e o único local onde posso comer enquanto uso essa raríssima
ferramenta à qual damos o nome de wifi. “Westerners, westerners...” Porque raio
precisamos nós de internet?? Apesar do serviço ser pobre e o conceito de
“hospitalidade” ainda não ser de todo familiar, estes empregados de mesa estão
mais habituados a estrangeiros de pele branca do que quaisquer outros com quem me
tenha cruzado até hoje. Fazem o que têm a fazer lentamente mas com a sombra de
um sorriso no rosto.
mais
luxuoso da cidade e o único local onde posso comer enquanto uso essa raríssima
ferramenta à qual damos o nome de wifi. “Westerners, westerners...” Porque raio
precisamos nós de internet?? Apesar do serviço ser pobre e o conceito de
“hospitalidade” ainda não ser de todo familiar, estes empregados de mesa estão
mais habituados a estrangeiros de pele branca do que quaisquer outros com quem me
tenha cruzado até hoje. Fazem o que têm a fazer lentamente mas com a sombra de
um sorriso no rosto.
Quando termino estou pronta para me pôr a caminho e pego na scooter azul
petróleo, que já não dá tantos problemas como de início. Antes de chegar a Karuna,
ainda faço outra paragem: chai na senhora do quiosque vermelho. Não sei bem
como fui lá parar pela primeira vez, mas trata-se do chá mais bem feito e
barato que encontrei. São 15 rupias por um copo meio cheio, o que equivale a
outros 5 ou 10 minutos relaxantes antes de começar o dia.
É pouco depois das oito horas que estaciono em frente ao portão de ferro
azul e sou recebida por uma mão cheia de cães felizes por me verem todos os
dias. E assim percebo que fiz a coisa certa ao voltar uma e outra vez! A
Moonlight é uma cadela castanha, de porte médio, que vive na Karuna Society
desde que teve o acidente que lhe roubou as patas traseiras. E é ela a cadela
mais feliz da casa; a que me recebe sempre com um sorriso e quer a atenção toda
para si! Junto a ela, vivem outros vinte e tal cães. Penso que estão na zona da
casa principal devido às características do local onde foram resgatados, porque
para lá de outro pequeno portão, onde o terreno se parece mais com a “rua” do
que com o “jardim de uma casa”, vivem mais dez cães. É claro que cada um tem a
sua personalidade e eu fui conhecendo todos os membros de cada grupo até ser
amiga de alguns deles ou apenas conhecida de outros!
Depois de um alegre festim de boas-vindas, encontro os pratos de comida
preparados e a arrefecer sob a ventoinha de uma das salas de tratamento. Quando
chega a hora da refeição, somos cinco pessoas a espalhar os pratos por todo o
terreno, oferecendo-os a um cão de cada vez, o mais rapidamente possível. Tem
de ser rápido para garantir que todos têm direito ao seu prato e para evitar
lutas, embora nunca seja realmente possível. Entretanto, alguém também levou
cinco pratos para o interior da casa, onde os mais pequenos ou mais fracos
comem de porta fechada. Às vezes é preciso ajudar os cães cegos ou aqueles que
estão doentes. E também faço um esforço para ver se todos estão a comer ou se
algum deles ficou pelo caminho. Nesse caso, ajudo-o a comer sem a interferência
de outros cães ou tento perceber se se passa alguma coisa de errado. Claro que
para além das doenças já nossas conhecidas, todos os dias há um ou outro caso
de febre ou algum tipo de mau estar. E, se estes cães não se alimentarem quando
devem, sou responsável por garantir que terão uma sessão de soro brevemente,
tal como algum antibiótico ou vitamina de que necessitem.
Mas antes de mais nada, preciso de dar atenção aos oito cachorrinhos bebés
que chegaram na semana passada. A mãe deles não resistiu a um vírus que andou
pela zona e por isso eles passam a maior parte do dia sozinhos, na banheira da
casa-de-banho grande. São do tamanho da palma da minha mão e sou eu que lhes
dou quatro ou cinco seringas de leite a cada um, a cada hora e meia. Enquanto
esse tempo não passa, normalmente encontro-os a dormir, enroscados uns nos
outros. Mas não há muito tempo para ficar a olhar porque todos os outros estão
à minha espera lá fora. Roubo mais um pouco de leite para aqueles que estão
mais fracos e às vezes até consigo deitar a mão aos cereais da Pedigree, que
distribuo pelos que ainda ficaram com fome. A comer arroz todos os dias, eu
também dizia que tinha fome se me viesse o cheiro destes cereais...
Tanto de um lado como do outro do portão, faço os possíveis para dar
atenção a todos os cães, um de cada vez. Mas claro que não consigo passar tempo
com cada um deles todos os dias. De qualquer modo, pelo menos dia sim, dia não,
todos têm uma boa sessão de massagens – que ofereço em troca de uma limpeza de
todas as carraças que consiga encontrar. E depois são escovados!
Antes de chegar a hora do almoço claro que os oito bebés têm direito a mais
leite do que na hora anterior porque desta vez ficarão sem alimento durante
mais do que o período habitual de uma hora e meia. Por vezes, se tiver tempo,
vou também à zona dos animais maiores. A rapariga que lá trabalha não fala
inglês mas é sempre simpatiquíssima e dá-me a impressão de que pede ajuda não
tanto pelo que posso fazer por ela, mas para se divertir um pouco. Claro que
adoro ir lá – é uma experiência totalmente diferente – mas a verdade é que o
trabalho é pesado e eu não percebo nada daquilo! Em cerca de meia hora encho e
carrego baldes para alimentar as vacas, búfalos, burros, cavalos e o camelo.
São tantas vacas e búfalos que às vezes tenho medo que enquanto tento abrir
caminho com os baldes de ração na mão, algum deles decida que eu lhe cheiro a
almoço e me dê um encontrão. Os animais bebés e os feridos, têm direito a comer
dentro do estábulo e também a sacos extra de cenoura ralada. Para além destes,
há ainda uma maternidade onde não me posso esquecer de ir, mas tenho de
garantir que nenhum dos outros animais me segue.
E pelas onze e meia da manhã, quando o sol está alto e mais quente do que
em qualquer outra altura do dia, são horas de voltar para a cidade. Experimento
cada um dos restaurantes da rua principal ou como numa das cantinas do
ashram... há comida do sul ou do norte da India e também continental (claro que
o preço dobra ou triplica, neste caso!). Lá no ashram, como sozinha na zona das
mulheres e mantenho-me em silêncio até sair. Mas a comida é boa e o preço
convidativo. Pelo menos uma vez por outra dá jeito balançar as contas! Enquanto
a minha refeição mais cara no exterior custou 300 rupias, a refeição mais
barata que fiz no ashram custou apenas 17 rupias.
Até às três da tarde tenho imenso tempo para dormir a sesta ou ver um
filme. Ficar na rua está fora de questão ou perco toda a energia que ainda
possa ter! E, mais uma vez, pelo caminho antes de regressar ao refúgio, paro
para um chai na tal senhora do quiosque vermelho. Ela já me conhece e não
preciso de fazer gestos para explicar o que quero. Mesmo antes de desligar o
motor da mota, já a vejo a preparar exactamente “o do costume”. E assim se faz
uma vida rotineira, mesmo a viajar!
Durante a tarde no canil há muito trabalho para fazer. Tanto quanto
possível, continuo a atacar as carraças e a verificar o estado de todos os
cães. Para além disso, também ajudo na clínica, faço companhia aos cães que
precisam de ficar a soro durante mais tempo e reporto novos casos de doenças ou
problemas que possam existir. Mudam-se ligaduras, distribuem-se injecções,
limpam-se feridas ou tira-se o pus de infecções... seja aquilo que for, o certo
é que o trabalho não acaba!
Antes das cinco é a altura da próxima refeição e dirijo-me à cozinha para
ir buscar o balde de arroz. Misturo bem com cereais e dois ovos cozidos, e
sirvo cada prato de forma igual. Todos comem muito rápido mas faço questão de
deixar os pratos no chão até que todos estejam satisfeitos. Ao contrário dos
funcionários indianos, que querem fazer tudo a correr, só nessa altura é que eu
levo os restos para os burros e me ponho a lavar as taças. Ainda faço uma
visita aos gatos (cerca de 15), mudo todas as águas, volto a alimentar os oito
bebés e apercebo-me de que mais um dia chegou ao fim.
Antes de ir para casa, paro para mais um momento que já faz parte da rotina,
desta vez num quiosque da rua principal, junto ao meu hotel. São horas de beber
um badam! A bebida de leite, deliciosa, que descobri quando estive em Thiruvannamalai.
Às vezes compro uma samosa para acompanhar, outras vezes o badam milk chega-me
como lanche, antes de ir tomar um duche prolongado e mudar de roupa. Passar o
dia com cães é muito bonito, mas agora percebo que a brincadeira de usar sempre
a mesma roupa para trabalhar até faz sentido! Deito a roupa para lavar ou
deixo-a pendurada fora do quarto e faço uma auto-vistoria completa para
garantir que não trouxe nenhum bicharoco comigo para casa.
Depois de um jantar demorado e mais um pouco da minha série, deito-me
relativamente cedo e preparo-me para outro dia!
Foi assim durante um mês. No total, 24 dias de trabalho e 4 dias de folga!
E chego ao fim de um mês a sentir-me realizada e feliz por ter decidido vir
fazer voluntariado aqui, por ter conhecido todos estes animais fantásticos e
ter contribuído para a felicidade deles. Mas, uma vez mais, também frustrada
por tudo o que vejo de errado e não consigo mudar... Porque de facto eu e outra
mão cheia de voluntários aqui e ali nunca poderemos mudar a mentalidade ultrapassada
de mais de um bilião de indianos!
Por isso é que no último dia que passei na Karuna Clinic, tive uma
discussão prolongada com os funcionários e fundadora, onde fiz questão de
apontar o dedo a tudo o que encontrei de errado. De qualquer forma, é claro que
isso não muda o facto de, em apenas 28 dias eu ter visto morrer tantos animais
que podiam ter sido salvos!
R.I.P.
7 dos cachorrinhos recém-nascidos
Tim-Tim
Raquete
Jacklin
Jacklin Junior
Barnabé
Teddy
Princess Sofia
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