Eu estava a passar a minha segunda noite em Anjuna quando... tive a noite
mais mal dormida dos últimos três meses! Pode ter sido uma premonição, ou
talvez fosse obra do sexto sentido que acredito que quase todos os viajantes
tenham.
Depois de jantar num restaurante ali perto, voltei para o meu quarto – um
anexo na casa da Dona Maria – e preparei-me para me deitar cedo, enquanto me
pus a ver mais um episódio da minha nova série preferida.
Foi pouco depois de decidir que me ia deitar assim que esses 45 minutos
terminassem que ouvi claramente um cão a ladrar por cima da voz dos actores que
já conheço tão bem. E depois outro e ainda outro. Tirei os phones e os cães
pararam de ladrar. Em vez deles, ouvi os passos de alguém a aproximar-se do meu
anexo e depois a parar muito perto da minha porta, ao que me pareceu. Decidi
apagar a luz e pensei que talvez se fossem embora se não houvesse movimento no
interior. E esperei. Ouvi um carro a estacionar não muito longe (talvez no
caminho de acesso à casa) e depois mais passos. Passos que deram a volta a todo
o anexo e depois uma ferramenta qualquer. Pareceu-me que estavam a tentar
entrar no anexo pela porta das traseiras e por essa altura já não estava nada
tranquila. Lembrei-me que a Dona Maria me tinha dito para não sair à noite
porque ela tinha um sono pesado, mas que durante o dia não precisava de me
preocupar porque ela “andava sempre por ali”.
Assim esperei, meio acordada, meio a dormir, que o dia voltasse a nascer. E
pelas seis da manhã, já estava de mochila às costas pronta para sair.
Nesse mesmo dia, depois de almoço, apanhei o autocarro local para Mapusa,
depois outro para Panaji e, finalmente, um terceiro para a Praia de Miramar. Eu
sabia mais ou menos onde queria ir, mas a verdade é que não tenho tido muita
sorte com os mapas de Goa. Por isso decidi caminhar, em vez de aceitar as
muitas propostas dos taxistas que me queriam dar boleia – o que teria sido, de
facto, muito melhor ideia.
Eu estava numa rua calma, paralela à praia, quando um rapaz se aproximou e
caminhou comigo. Perguntou-me o meu nome, país de origem, idade... enfim, no
fundo estas são todas as perguntas que qualquer indiano perguntaria a qualquer
estrangeiro. Porque a verdade é que eles são mesmo muito curiosos,
especialmente quando se trata de alguém com pele branca!
Mas a conversa mudou completamente de figura quando o rapaz se ofereceu
para me ajudar a carregar a minha mala e eu disse que não. Ele disse que só me
queria ajudar e que os hostels ficavam junto à praia, um pouco mais à frente.
Por isso levou-me até à praia, por uma estrada de terra batida. E ali,
continuou a insistir que só me queria ajudar e ser meu amigo. Perguntou-me se
tinha namorado e onde é que ele estava. Tal como li em tantos blogues de viagem
sobre a Índia, sei que a resposta a dar é que sim, tenho namorado, que ele está
numa cidade próxima e que vem ter comigo daqui a pouco tempo.
Quando lhe gritei que desaparecesse da minha vista porque “eu sei caminhar
sozinha”, tirei a mochila das costas e fiquei à espera que se afastasse. Às
vezes resulta fazer um “mini-escândalo”... mas claro que desta vez não
resultou! O miúdo tinha 20 anos e já me tinha tocado no peito, “sem querer”,
quando tentou ver o mapa que eu levava debaixo do braço. E assim, quando eu
parei, ele parou também. Sentou-se e baixou as calças. Perguntou-me se queria
ajudá-lo e depois disse mais uma séria de coisas que não vale a pena repetir!
Mais uma vez seguindo os conselhos dos blogues de viagem que li, se o
“mini-escândalo” não resultou, era altura para fazer um mega escândalo, manter
a calma interior e sair dali o mais depressa possível. E foi o que fiz! Voltei
a carregar a mochila, gritei-lhe tudo o que me veio à cabeça, na esperança que
alguém me conseguisse ouvir, e continuei a andar rápido, na mesma direcção! Ele
ficou para trás e eu acabei por encontrar uma rua com algum movimento, um pouco
mais à frente.
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