“Vipassana means insight into the true nature of reality. Vipassana meditation uses mindfulness to eliminate pain,
attain happiness and see life clearly.”
Regras do retiro:
1. O mais importante é o silêncio - sem interacção
verbal ou gestual.
2. Cada participante deve considerar que
está completamente sozinho.
3. Separação de homens e mulheres.
4. Respeitar o horário estabelecido.
5. Manter-se limpo e cuidar de todos os
espaços comuns.
6. Para qualquer necessidade material,
deve contactar o director de curso.
7. Se existirem questões, estas devem ser
colocadas ao professor durante o período estabelecido.
8. Quaisquer materiais de leitura e
escrita devem ser entregues ao director de curso no início do retiro.
9. Cigarros e/ou drogas devem ser
entregues ao director de curso.
10. Quaisquer produtos alimentares devem
ser entregues ao director de curso.
11. Não devem ser praticados rituais
durante o curso. Talismãs, terços ou amuletos devem ser entregues ao director
de curso.
12. Recolher pelas 21:30h.
Dia-a-dia durante o retiro:
04:00h – Despertar
04h30h às 06:30h – Meditação
06:30h às 08:00h – Pequeno-almoço/Descanço
08:00h às 09:00h – Meditação de grupo
09:00h às 11:00h – Meditação
11:00h às 13:00h – Almoço/Descanço
12:00h às 13:00h – Questões com professor
13:00h às 14:15h – Meditação
14:30h às 15:30h – Meditação de grupo
15:30h às 17:00h – Meditação
17:00h às 18:00h – Lanche/Intervalo
18:00h às 19:00h – Meditação de grupo
19:00h às 20:30h – Discurso/Filme
20:30h às 21:00h – Meditação de grupo
21:30h – Recolher
Seguindo
estas regras e este horário, se passa o dia a dia no centro de meditação. Eles
dizem que não se pode beber, fumar, matar, mentir, ter relações sexuais, etc...
Mas o pior mesmo é aquilo que podemos fazer! Aquilo que fazemos...!
Esta foi
provavelmente uma das maiores provas de sobrevivência que alguma vez
experimentei na vida. E não digo que a minha vida estava em risco seja de que
forma for porque não estava. A verdade é que um lugar destes é talvez o ideal
para ter uma experiência de segurança quase total num país como a Índia. Mas
foi sem dúvida a experiência mais difícil pela qual alguma vez passei – tanto
física como emocionalmente. Depois de ter saído de Chennai, sinto-me uma sobrevivente.
Posso
tentar descrever a fome que senti... e de como me apercebi de que, no mundo em
que vivo, não faço ideia do que significa ter fome. E não digo passar fome...
porque isso ainda hoje não sei! Mas TER fome! Isso acho que senti pela primeira
vez. Não é uma sensação ligeira como quando dizemos “já comia qualquer coisa”
ou “mãe, tenho fome”... é realmente estar com fome! No centro de meditação não
existem jantares nem snacks ao longo do dia, para petiscar qualquer coisa
sempre que sentimos a necessidade de “enganar o estomago”. Ali temos três
refeições muito leves entre os períodos de meditação e, de um dia para o outro,
passamos muitas horas sem comer nada. Eu não imagino como teria sido se eu
fosse do tipo de comer muito... porque mesmo eu repeti sempre duas ou até vezes
(sempre que me fosse permitido) e mesmo assim ficava com fome.
A próxima
necessidade básica da qual me senti privada: SONO!! Estava constantemente cheia
de sono. Dormiamos 6 horas por dia – o que por vezes pode ser suficiente... mas
não sei porquê, nunca era!!
Mas acho
que, mesmo assim, mais difícil ainda foi a falta de interacção social.
Partilhar um espaço limitado com cerca de 60 mulheres e não poder falar com
elas... demasiada energia feminina no mesmo lugar. E eu sem conhecer nenhuma
delas! Por um lado, não deixa de ser verdade que talvez seja melhor assim...
não sei se conseguiria aturar tantas mulheres durante 10 dias seguidos, 24
horas por dia. Aturar homens é muito mais fácil. Por outro lado, partilhar o
quarto com uma mulher que não conheço e com quem não posso comunicar, é mesmo
esquisito! Soube que se chamava Theresa e era da Irlanda. Antes de me vir
embora, acabei por quebrar as regras e falar com ela por isso também sei que é
irlandesa, está na casa dos 40, é professora de yoga há quase 20 anos e também
já não pode aturar “as regras”.
Apesar de
tudo, foi bom fazer 6 dias (ou seja, quase 60 horas!) de meditação. Não sinto
que tenha falhado de alguma forma ao sair antes dos 10 dias terminarem porque a
verdade é que se trata de uma jornada pessoal. Os professores e auxiliares
seguiam-me e impunham-me regras como se de uma escola se tratasse. Mas um
retiro espiritual é algo que acontece internamente e de forma individualizada. Por
isso por vezes não me apetecia ir para o Dhamma Hall para ouvir a cassete que
era igual todos os dias e partilhar o espaço com tantas outras mulheres. Por vezes
só me apetecia caminhar, sentar-me sozinha no quarto ou ficar encostada à
parede a olhar para aquele fantástico templo dourado! Mas parece que elas não
entendiam isso e tentaram vezes de mais guiar-me na direcção que queriam.
Se poderia
ter ficado até ao fim? Sim, poderia! Mas acho que durante os primeiros 4 ou 5
dias recebi tudo o que esperava receber daquele lugar. Meditei, sentei-me
comigo mesma, descansei do mundo... avaliei o passado, idealizei o futuro e
depois conceitrei-me no presente. Devo dizer que esta última foi a fase mais
difíl de ancançar! É muito fácil deixar a minha mente vaguear até às ideias e
objectivos que tenho para o futuro. Pensar na longa viagem que ainda tenho pela
frente neste país gigantesco, em tudo o que quero fazer aqui e em tudo o que a
India tem para me dar... É fácil pensar no “e depois?”, imaginar vários
cenários que obviamente podem ser alterados ao longo do caminho, embora já me
pareçam bastante bem! E regredir também não é demasiado complexo. Estar em
silêncio sentada numa sala vazia deu-me as ferramentas necessárias para pensar
no passado, em tudo o que já fiz e a forma como foi feito. Aperceber-me de
quais foram os momentos mais felizes da minha vida e pensar em como posso
tentar viver emoções do mesmo género, embora aceite que esses momentos – tal
como aconteceram – nunca mais vão voltar. And that’s ok! :)
As horas passaram devagar enquanto estava em silêncio. Se nalguns dias estava inspiradíssima e podia sentar-me durante horas e horas seguidas sem me lembrar do desconforto, noutro só conseguia concentrar-me na dor. Os meus joelhos inchavam ao fim de tantas horas sentada “à chinês” e tornava-se impossível encontrar uma posição confortável. Apesar de não fazer nada fisicamente exigente, sentia o suor escorrer-me pela testa e todas as articulações a gritar pelo mais simples alongamento. Ao fim de seis dias, foi bom voltar à “liberdade” da estrada, esticar as pernas e comer nos indianos!!
De qualquer modo, voltarei sem dúvida a experimentar, assim que me sentir preparada para fazer 10 dias seguidos. E sem dúvida é algo que aconselho toda a gente a fazer! É uma grande viagem espiritual e, mais importante ainda, pessoal. Não é todos os dias que temos o privilégio de passar tanto tempo connosco próprios, sem distracções, sem ninguém para interromper. Não é todos os dias que temos a oportunidade de passar 10 dias sem preocupações, com alguém para nos dizer o que fazer, preparar as refeições e servir. Seja para aprender a viver connosco próprios (para aqueles que ainda não sabem amar-se o sufience) porque na verdade somos a única pessoa com quem vamos passar o resto da nossa vida, right?? So you better love yourself and know how to spend time alone!! Seja para resolver algum conflito ou dúvida que esteja a pairar na nossa mente; seja para aprender a viver no presente e a tirar o melhor proveito de cada segundo... porque esse é o verdadeiro objectivo desta ténica específica! Seja para ganhar inspiração... na verdade, inspiração é a palavra. E o meu quarto dia foi o mais alto pico disto. Aconselharia qualquer escritor, actor, pintor ou qualquer outro tipo de artista a fazer algo deste género... porque tudo o que mexe com a mente e as emoções tráz novas ferramentas de trabalho a um artista!
E não, não tens de vir à Índia para fazer isto. Apesar de alguns dos melhores centros estarem aqui, os retiros Vipassana podem ser feitos em qualquer parte do mundo e na maioria das vezes os cursos são traduzidos para a língua do país de acolhimento.
Relativamente a custos? Zero! O retiro funciona por donativo. A alimentação e estadia fazem parte do processo por isso eu diria que o donativo deve pelo menos cobrir esses custos (embora não haja um valor mínimo obrigatório), mas cada um oferece aquilo que quiser de acordo com o que sente (ou não) que recebeu da prática. Estes donativos são a única forma dos centros continuarem em funcionamento e poderem oferecer cursos a futuros alunos.
Relativamente a custos? Zero! O retiro funciona por donativo. A alimentação e estadia fazem parte do processo por isso eu diria que o donativo deve pelo menos cobrir esses custos (embora não haja um valor mínimo obrigatório), mas cada um oferece aquilo que quiser de acordo com o que sente (ou não) que recebeu da prática. Estes donativos são a única forma dos centros continuarem em funcionamento e poderem oferecer cursos a futuros alunos.
Aqui fica o site (https://www.dhamma.org) e a representação da prática em Portugal, por exemplo:
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