31 January 2015

Matrimandir, Auroville

"The Matrimandir is an edifice of spiritual significance for practitioners of integral yoga, situated at the centre of Auroville initiated by The Mother of the Sri Aurobindo Ashram. It is called soul of the city and is situated in a large open space called Peace. Matrimandir does not belong to any particular religion or sect."

"A place for trying to find one's consciousness. It is like the Force, the central Force of Auroville, the cohesive Force of Auroville." (The Mother)

 Matrimandir é o centro de Auroville. Isso eu soube pouco tempo depois de aqui chegar. Mas na altura tratava-se apenas de uma bola dourada, enorme. Uma obra arquitetónica com algumas décadas de história e que, aparentemente, teria sido visionada pela "mãe" (The Mother, Mirra Alfassa). Mas o que era isso da "mãe"? E o que era isso de "lugar sagrado"? Hoje tive a oportunidade de descobrir, sem ninguém me dizer fosse o que fosse, sem ninguém me mostrar.
Auroville é o único lugar do mundo que foi projectado para pertencer a ninguém. E ao mundo, também. É uma comunidade enorme, visionada pela "mãe" por volta dos anos 60. O objectivo era que todos os povos, todas as pessoas, raças ou religiões pudessem viver em comunidade como uma única força, em cooperação com o mundo à sua volta. A natureza, os animais, os outros. Foi assim que nasceu a primeira comunidade e as próximas que lhe seguiram. É assim que estou hoje a plantar árvores em Sadhana Forest e é assim que estar em Auroville é como estar em terra de ninguém, mas de todos. O único lugar da Índia que não é, de facto, a Índia. Está para além de qualquer língua ou nacionalidade.

Entrar no Matrimandir foi uma viagem totalmente nova, que nunca tinha experimentado e que me levou a lugares absolutamente indescritíveis. Não é preciso acreditar em nada, em nenhum deus, em nenhuma religião, em nenhuma arte, em nenhum país... não é preciso fotografar, comunicar ou saber meditar.
Sinto que pela primeira vez na vida me senti realmente conectada. Com TUDO! Com o mundo, as pessoas à minha volta, os lugares, a luz, as cores, os sons. Era como se tudo pudesse acabar e pudesse ficar só aquilo, ali naquele momento.

A primeira sala para onde nos levaram, depois de deixarmos os sapatos lá fora e todos calçarmos meias brancas de algodão, era branca e silenciosa. Havia vários lugares para sentar em lua cheia. Cada um na sua almofada branca, sentámo-nos para os primeiros minutos de meditação. Ao centro estava uma bola de cristal, que reflectia a luz do sol, com a intensidade certa, a necessária. Consegui sentir o vento leve na sala enorme, vazia; ver os raios de sol convidativos; ouvir o silêncio mais profundo que alguma vez havia experimentado. Ali senti-me libertar de todos os pensamentos, à medida que me concentrei no ritmo da minha própria respiração. Deixei escapar todo o passado e todo o futuro. Esqueci-me da sensação de vertigem que o caminho em expiral que ali me levara, me havia proporcionado, poucos minutos antes. Foi como se, aos poucos, deixasse ficar tudo o que há de supérfelo e me concentrasse apenas naquele momento. 
Já tinha tentado meditar, outras vezes. Já tinha ouvido várias versões daquilo que "significa" meditar, se é que existe uma versão certa... Mas a verdade é que nunca tinha sentido... aquilo! Nunca tinha conseguido. E hoje, pela primeira vez, senti-me totalmente leve. Deixei que a minha mente se transformasse numa folha branca, sem absolutamente nada... nenhuma emoção, nenhuma sensação específica... completamente purificada!
Soube que tinha de me levantar quando senti uma breve oscilação de luz, para lá das pálpebras. Mas tudo decorrer de forma natural. Sem pressa, sem pressão, sem palavras. Porque realmente não era preciso dizer nada. Não era preciso olhar para ninguém. Como se tudo fizesse sentido! E já li sobre isto, já ouvi outras pessoas falarem disto mas... nunca tinha sentido nada assim e estou verdadeiramente impressionada.

O grupo guiou-me para um novo espaço. Um espaço que me pareceu ficar imediactamente em baixo da sala de onde haviamos saído. Desta vez estavamos ao ar livre sentados em volta de uma pequena fonte circular. A água deslizada por várias pétalas de lótus e terminada num ponto central. Um sítio lindo! E a brisa estava exactamente à temperatura perfeita. Não tinha frio, nem calor. Era como se naquele lugar específico todas as coisas fossem perfeitas. Esqueci-me do que é estar desconfortável e, por estranho que pareça, tudo aquilo fez-me pensar nas coisas mais importantes da vida. Lembrei-me de como me tinha esquecido delas na sala branca, e de como aos pouco me recordava apenas de uma pequena selecção de coisas, enquanto observava o deslizar da água. O centro era a comunidade, o mundo em que vivemos. Senti que, depois de deixar ficar uma conciência individualizada, ali voltava a formá-la, mas desta vez em sintonia com o que existe para além de mim... É mesmo difícil de explicar aquele lugar!
Mas finalmente, na árvore... a Banyan... a primeira e única árvore existente em Auroville e, hoje, o centro da cidade. Em 1965 Auroville era uma terra extremamente seca, com pouca vegetação. E esta árvore (aparentemente considerada sagrada em toda a Índia), ali estava, isolada, no ponto do mapa para onde a "mãe" teria apontado em reunião com o arquitecto que escolhera para desenhar a cidade e, mais especificamente, o Matrimandir. Ela apontara este lugar no mapa sem saber da existência da árvore, sem nunca lá ter ido, numa época em que ainda não havia nada aqui. Não havia árvores, não havia casas, não havia comunidades nem estradas. Mas ela visionou Auroville tendo este árvore como centro, como ponto de partida. E decidiu que ali seria construido o Matrimandir - este impressionante centro espiritual, a bola de ouro gigante. E foi assim que uma comunidade de voluntários cresceu. Tudo isto foi desenvolvido por voluntários, com instruções da "mãe", que acabou por morrer antes de ver terminada a sua visão. Mas a verdade é que hoje Auroville é exactamente aquilo que ela idealizou! E quando eu me sentei, encostada a um dos vários troncos daquela árvore, a olhar para o tronco principal e ainda com todas as sensações que trouxera dos dois lugares de meditação anteriores, vi duas pessoas. Eu vi a minha avó e a Kiara, elas estavam ao pé de mim e estavam juntas, como eu pensava! Foi estranhíssimo, mágico mas ao mesmo tempo muito real. E fiquei ali com elas até sair da zona que a "mãe" considerou sagrada, Matrimandir.
Não posso acreditar que haja alguém que consiga vir aqui sem sentir a energia deste sítio. Por mais formas diferentes que essa energia possa representar, nunca tinha estado num sítio tão poderoso! E já lá tinha passado muitas vezes mas nunca o tinha sentido, verdade. Depois de passar pelas salas de meditação que descrevi há pouco, tenho a certeza de que hei-de lá voltar e tenho a certeza de que hei-de sentir as mesmas coisas. Eu não acredito num "deus" em particular, ou naquilo que me ensinaram a acreditar... sempre foi difícil para mim ver isso ou seguir uma religião qualquer. Mas ali, não é preciso! Há uma energia que se sente e é indescritível, super poderoso! Quem me dera que tu, que estás a ler isto, pudesses lá ir e percebesses do que estou a falar. Pela primeira vez na vida senti que, afinal, talvez já tenha experimentado tudo o que é importante e que, mesmo que não pudesse experimentar mais nada, não havia nada de que me arrependesse. Senti-me conectada com o Universo inteiro e com todas as pessoas que já conheci ou que ainda hei-de conhecer. Senti-me livre e mesmo assim podia ficar ali, para sempre. 

Obrigada avó e Ki, por terem vindo ter comigo. Foi mágico! 

E quando as lágrimas cairam, mais uma vez não me pareceu que fosse por pena ou saudade, nem tristeza ou alegria... elas simplesmente caíram. Caíram sem parar enquanto estava naquele lugar. E depois, quando me afastei, pararam. E a magia também. Ficou a nostalgia de um momento que espero nunca esquecer!

1 comment:

  1. Querida ler este post encheu-me de uma doce e singela emoção, por estares a experienciar e a consciencializar algo absolutamente Cósmico e que sonho um dia poder visitar.Esse lugar SAGRADO! Fico muito feliz por ti e partilho contigo estes momentos,Abraço Cosmico beijinhos 💗💗💖

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