26 February 2015

Sadhana Forest - Parte II



"I am a dreamer, I am a wanderer, I am Sadhana, my soul never dies."




Sadhana Forest é um projecto de recuperação florestal que teve início em 2003, pelas mãos do israelita Aviram. Onde a terra era seca e despida, há tão pouco tempo atrás, hoje existe uma vasta população florestal (e animal também!!). Sadhana respira vida! E não me refiro apenas à grande comunidade de voluntários que, ao longo dos anos, aqui se formou. Refiro-me ao fantástico ecossistema que nos rodeia. Viver em Sadhana Forest obrigou-me a repensar tudo aquilo que eu sempre dei como garantido no meu dia-a-dia. E, acima de tudo, obrigou-me a esquecer que na minha vida rotineira teria medo de insectos e ratazanas, ou que nunca viveria sem luz ou papel higiénico.
Ao caminhar pela floresta apercebo-me da constante existência de sons. São dos mais variados que há, mas em nada semelhantes àqueles com que cresci, na cidade. Durante todos os momentos do mais profundo silêncio, apercebo-me de que onde há vida, aquilo a que acreditava chamar “silêncio” não existe. Não pode existir de todo! Caminho pela floresta e ouço os meus próprios passos... o som dos meus pés sob a terra batida, mesmo quando não uso sapatos. Ouço o vento a furar o seu caminho através do meu cabelo. Ouço a minha respiração. E, depois de tudo isto, posso focar-me em muito mais: todo o mundo à minha volta! Ouço a linguagem das árvores, o baloiçar das plantas rasteiras, o cantar dos grilos, a suave dança das borboletas, o bater das asas das mais variadas raças de pássaros ou o seu cantar. Olho à minha volta e vejo o movimento! Respiro fundo com a certeza de que estou viva. Porque nunca vi nada tão vivo! Nunca até esta última semana em Sadhana Forest, quando caminhava sozinha pelo trilho em frente à cabana de meditação. Parei para contemplar aquilo que me circundava e dei por mim surpreendida com o que os meus olhos testemunhavam. Fascinada! As cores que me cativavam eram salpicadas por vida e movimento. Naquele momento foi como se, pela primeira vez de sempre, eu fizesse parte de algo que realmente faz sentido: um “planeta vivo”, tal como me tentaram ensinar na escola durante tantos anos. O problema é que na altura não conseguia ver isso. Não conseguia ver porque ninguém me mostrou isto antes! Os livros são inanimados, as paredes das escolas são baças e as estradas não têm vida. Uma criança de cidade, como eu fui – e sempre me orgulhei de ser! – não pode compreender o que é um “ecossistema”. No entanto, lembro-me de estudar o conceito durante vários anos; e de tentar decorá-lo sem que realmente o entendesse.











A comunidade é constituída por um grupo de voluntários permanentes (incluo neste grupo não só a família que a fundou – o Aviram, a mulher e as duas filhas –, mas também alguns voluntários de longa duração, que se dedicam ao projecto durante um período superior a três meses) e, claro, os voluntários de curta duração (o grupo no qual eu me incluo, pelo menos para já). Para acomodar todas estas pessoas, existem duas cabanas/dormitórios grandes (para cerca de 60 voluntários cada) e várias cabanas privativas de tamanhos diferentes, que são oferecidas a casais, famílias ou voluntários de longa duração.
Quando entrei nos dormitórios principais, soube imediatamente que, em qualquer um deles, quereria escolher um lugar no andar de cima. Eram construções sustentáveis, quase totalmente construídas com materiais da floresta (troncos de árvores, bambu e folhas secas) mas robustas e acolhedoras. Acabei por optar por uma das camas livres no dormitório junto à cozinha, já que os restantes recém-chegados pareceram querer instalar-se ali. Tinha gostado do dormitório com livraria, mas a verdade é que queria manter o Yonathan e o James por perto. Talvez por termos chegado os três à mesma hora e termos tido algum tempo para nos apresentarmos mutuamente, senti-me próxima deles desde logo. E foi assim que eu e o James passámos 31 noites a dormir no canto mais ao fundo do dormitório da cozinha. Tinhamos colchões, redes para nos protegermos dos mosquitos, e uma espécie de janela que nos permitia ver as estrelas lá fora ou os pássaros que cantavam pela manhã.


Para além destas, a comunidade estava provida de uma cozinha principal e outra secundária, que funciona como dispensa; cerca de 10 casas de banho (ao ar livre e ecológicas, é claro!), 6 zonas para banhos, uma área de lavandaria com uma cabana de apoio, a cabana de meditação (onde também decorrem workshops semanalmente), a área das crianças (onde são organizadas actividades diárias para as crianças das comunidades locais) e, claro, a grande cabana principal. É nesta última que todos os membros da comunidade se encontram diariamente e onde todos passam a maior parte do seu tempo... É aqui que são feitas todas as refeições, organizados eventos e alguns workshops, reuniões semanais ou simplesmente momentos de descanço para todos. Entre um alfabeto cheio de pormenores super interessantes, irei para sempre recordar a ideia de gift economy (da qual faz parte, por exemplo, a free store – onde deixamos aquilo que já não queremos e vamos buscar outras coisas das quais possamos precisar) e, claro, a mud pool (que não passa disso mesmo, uma piscina de lama) onde passei momentos divertidos e relaxantes, mas que tem como objectivo principal o armazenamento das águas das chuvas para utilização na floresta durante os meses mais secos. Não usar produtos químicos ou embalados faz parte da grande luta por um estilo de vida mais sustentável e orgânico e agora sei que – por muito que para nós, europeus, seja uma tarefa difícil – é possível! Com o tempo poderia habituar-me a usar óleo de côco em vez de champô e a comer apenas produtos naturais, em vez de trazer embalagens para a floresta. Entre algumas outras, esta é uma das regras que tentamos manter para que a vida em comunidade funcione: reduzir a produção de lixo ao mínimo!



O trabalho que fazemos faz parte de um grande movimento para tentativa de recuperação da antiga (e quase extinta) Tropical Dry Evergreen Forest – que costumava ocupar grande parte do sul da India e também o Sri Lanka. Hoje existe menos de 0,01% dessa grande floresta mas a possibilidade de voltar a dar-lhe vida. Em Sadhana Forest os voluntários podem dedicar à floresta ou a comunidade quanto tempo desejarem, embora exista um sistema obrigatório de dois sevas por dia e um período minímo de voluntáriado de quatro ou duas semanas (dependendo da época do ano). SEVA significa “selfless service” e é o nome que damos a todos os “turnos” do trabalho que necessita de ser feito diariamente ou de segunda a sexta-feira. Isto inclui variadas tarefas para a manutenção de tudo o que a comunidade precisa: alimentação (grupos de 6 voluntários demoram cerca de 2:30 horas a preparar cada uma das 3 refeições diárias; 2 pessoas dedicam-se à manutenção das estações de água espalhadas pelo acampamento e também fazem o trabamento do lixo orgânico, 2 voluntários que limpam as casas-de-banho e zonas para banhos, e que tratam da compostagem, outros 2 voluntários ocupam parte do seu tempo diário a fazer reclicagem de todos os produtos não orgânicos que ainda temos de utilizar (e, quando possível, reutilizam-nos para construir coisas que possam ser necessárias – como estantes ou suportes para o sabonete nas zonas de banho), 2 voluntários tratam das cabanas – recuperando os danos causados por abelhas e témitas, há várias pessoas responsáveis pela limpeza constante da comunidade, pessoas responsáveis por rodas os paineis solares ao longo do dia, para que possamos ter luz à noite, 2 responsáveis pela cabana de ferramentas (a sua organização e recuperação), 1 responsável pelo aluguer e manutenção das bicicletas, 4 voluntários regulares na zona das crianças, onde todos os dias são recebidos miúdos das escolas das comunidades locais, pessoas na lavandaria, também na limpeza da cozinha e manutenção das estações de lavagem da loiça, pessoas para servir as refeições, alguém que acorde todos os dias um pouco mais cedo para – a cantar ou a tocar – possa acordar todos os outros em simultâneo, entre várias outras actividades que, de grande ou pequena escala, são essenciais para que a comunidade funcione bem. Por fim, também o mais importante mas mais demorado trabalho florestal, que inclui não só a plantação de novas árvores, mas também o tratamento da terra e das plantas, os projectos de recuperação das águas das chuvas (construimos várias pequenas “mud pools” por toda a parte), regamos as árvores mais jovens e damos vitaminas a todas as que não nasceram de forma natural (as que nós plantamos, portanto), limpamos a terra, coleccionamos folhas secas e reutilizamo-las para levar os seus nutrientes às árvores mais bebés, abrimos trilhos por toda a parte para causarmos o menor impacto possível à floresta e de uma forma equilibrada (sob orientação de dois especialistas) também acabamos por matar algumas plantas ou árvores – são as plantas invasivas que roubam espaço e recursos àquelas que procuramos sustentar – mas também as reutilizamos como lenha para os nossos fugões e fornos.









Os dias começam sempre pelas 5:45h com a já referida “wake-up call”, feita por um voluntário qualquer que canta e toca por toda a comunidade (desta forma este voluntário é a única pessoa que precisa de utilizar a energia de um telemóvel ou relógio para acordar); às 6h estamos todos juntos naquilo a que chamamos “morning circle”, fazemos alguns jogos, massagens ou alongamentos e terminamos sempre com abraços de bom dia uns aos outros. Assim, por volta das 6:15h estamos todos em frente à casa das ferramentas prontos para que cada um segua para o seu posto dessa manhã. Levamos sempre águas e bananas para todos, claro! 


Este primeito SEVA (que varia de voluntário para voluntário) inclui sobretudo as tarefas de floresta. É assim porque a esta hora da manhã ainda está uma temperatura agradável para trabalhar, antes de o sol ficar demasiado quente. Pelas 8:45h o pequeno-almoço espera-nos na cabana principal, onde alguém já organizou um grupo de 10 pessoas que empratam e servem todos os outros voluntários.
Comemos sempre juntos. As refeições são uma das oportunidades de juntar toda a comunidade e se alguém faltar, a única coisa que irá ter disponível é uma quantidade de bananas ilimitada.
Depois de todos os voluntários e por vezes visitantes terem os seus pratos de comida sempre vegan, temos os anúncios para a comunidade. Toda a gente é livre de anunciar, perguntar ou pedir seja o que for que esteja relacionado ou que seja do interesse de toda a comunidade. Segue-se um momento de silêncio e só depois podemos começar a comer. Também depois do momento de silêncio podemos fazer anuncios pessoais, como pedir boleias ou propor workshops, por exemplo. O mesmo processo acontece em todas as refeições. Ainda durante o pequeno-almoço, há alguém que circula com a lista dos SEVAs necessários para o próximo turno da manhã. Assim todos os voluntários que não têm um SEVA semanal (escolhido em grupo aos domingos à noite), pode propor-se para fazer outro qualquer serviço. Tudo tem de ficar feito portanto há sempre alguém que verifica se todos estão a cumprir a sua obrigação de fazer pelo menos dois SEVAs por dia.







 Terminada a refeição, cada um lava o seu prato nas estações de lavagem de loiça – onde utilizamos as palinhas do coco como esfregão e cinza como detergente, passamos a loiça por três águas e deixamo-la num último recipiente cheio de água potável e iodo para desinfectar.


Depois do segundo SEVA de cada um, voltamos a repetir o mesmo processo para almoçarmos juntos. E, finalmente, temos a tarde livre. Por esta altura parece que já passou quase um dia inteiro, mas é fantásticos que ainda sobra tanto tempo para fazermos o que quisermos. A não ser que, claro, tenhamos turnos extra (que, entre outras coisas, incluem limpezas ou trabalho na cozinha para a preparação do jantar de todos) – que são distribuídos aos domingos e são rotativos, para que todos os voluntários tenham o máximo de liberdade possível durante as tardes da semana e ao fim-de-semana.
Durante as tarde há workshops regulares, organizados por qualquer pessoa que queira partilhar algo com a comunidade (pode ser absolutamente qualquer tema ou actividade). Durante a minha estadia participei e assisti a vários, incluindo: clube de leitura, escrita criativa, yoga, meditação tântrica, acrobacia, veganismo, non-violent comunication, observação de aves, etc. 







Para que todos saibam o que será feito, existe um quadro semanal com a lista e horário de todos os workshops que os voluntários se propõe a oferecer. Assim, cada um pode decidir passar a tarde em Sadhana ou sair. As tardes são também os únicos períodos em que temos electricidade, entre as 12h e as 16h, na cabana principal. E por isso, quem precisar de utilizar o computador, telemóvel ou qualquer outros electrónico, acaba por ficar. Ou pode deixá-los a carregar para utilizar mais tarde.
Temos, então, muitas oportunidades para explorar Auroville – a vila mais próxima. Na sua maioria todos os voluntários alugam ou partilham com alguém um meio de transporte, bicicletas ou motas automáticas. E o “visitors centre” (o ponto de encontro mais comum em Auroville), fica a cerca de 30 minutos de bicicleta da nossa comunidade. Lá fui eu tantas e tantas vezes para matar saudades de um chai, café ou bolo! Ou simplesmente para ver pessoas diferentes ou passear.
É muito perto do Matrimandir e é possível fazer uma curta caminhada até ao seu miradouro ou simplesmente relaxar por baixo da grande Banyan – uma árvore impressionante e maravilhosa!
Para além deste local, existem muitas outras comunidades como a nossa e todas elas dão as boas-vinda a visitantes que queiram partilhar experiências ou simplesmente passar uma tarde com novas pessoas (sempre tão interessantes e inspiradoras!).
Por vezes, em passeios mais longos, fui também até à praia (um pouco mais longe, a cerca de 45 minutos de bicicleta) ou fiquei pelo caminho, na zona dos restaurantes e das lojas indianas.
É de facto uma vila pequena, mas muito acolhedora e multicultural. Auroville é um daqueles sítios que têm mais estrangeiros do que indianos, devido às tais comunidades que são sobretudo constituidas por pessoas que vieram para cá como voluntárias e acabaram por ficar, construindo as suas próprias cabanas na comunidade que mais lhes agradasse. Também a proximidade de Pondicherry – uma cidade com grande influência francesa e antiga colónia – faz com que Auroville seja visivelmente “europanizada”. 

 "May there be many forests to grow people."

2 comments:

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  2. Quem me dera poder viver todas estas coisas contigo!
    Looking forward to your next adventures, stay safe! <3

    Beijinhos aqui da perêta!

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