A minha primeira coisa
favorita em Hampi foi a vista do autocarro, todo o caminho até chegar a Hampi.
A minha segunda coisa
favorita em Hampi foi... Hampi!
Declarado Património Mundial pela UNESCO em 1986, o Conjunto Monumental de Hampi
é uma vila perto de Hospet, no estado indiano de Karnataka. A cerca de 7 horas
de Bangalore e 10 horas de Goa, este é um destino comum à maioria dos viajantes
estrangeiros, que se vêem atraídos pela sua beleza natural, mais de 500
monumentos (só no centro existem cerca de 350 templos!) e atmosfera “hippie”. Existem
também fortificações, um vasto e muito elaborado sistema de irrigação,
esculturas, pinturas, estábulos, palácios, jardins, mercados, etc. Uma coisa é
certa, o seu carisma e fotogenia vale mais do que aquilo que posso
descrever. De certa forma – e apesar de ser visualmente totalmente diferente –
o ambiente de Hampi e aquilo que interpreto como sendo um “backpacker’s
paradise”, faz-me lembrar a vila de Pai, no norte da Tailândia.
A
primeira coisa que ouvi sobre o alojamento neste destino foi “quando
chegares à estação, atravessa para o outro lado e arranja um hotel lá,
não
fiques do lado de cá”. Ora bem... o que será que “cá” e “lá” significa,
fiquei
eu a pensar!? E claro que quando o autocarro parou e dei uma volta de
360º à
procura de algum que me fizesse pensar em “o outro lado”, mas nada.
Acabei por
encontrar um quarto barato (200 rupias por noite em época baixa) na
“Ravi Guest House", por baixo do restaurante “Hampi Roof”, que fica na
pequena vila junto ao
rio. Pouco faltou para descobrir que “o outro lado”, era o outro lado do
rio.
Aparentemente é a zona preferida dos viajantes. Um lugar mais “hippie” e
“trendy”
e provavelmente mais calmo. A passagem de barco dura poucos minutos,
custa
apenas 10 rupias e funciona deste manhã cedo até às cinco da tarde.
Verdade seja
dita que, se por acaso não apanhares o último barco, a única forma de
atravessar o rio está a uma hora de distância. De qualquer forma, a zona
histórica fica “do lado de cá” e por isso não me fez confusão nenhuma
ter
percebido que me enganei!
“Do lado de lá do rio” fica Anegundi e, para qualquer viajante, é
completamente indispensável visitar ambas as margens. Anegundi tem vistas
fascinantes e também vários monumentos interessantes, embora não seja um
destino tão procurado como Hampi!
Assim, a primeira coisa a fazer depois de completa a curta travessia no
barco-taxi, é alugar uma scooter ou mopet para o dia. Vale a pena conduzir até
ao lago onde “é proibido nadar devido aos crocodilos” e apreciar as paisagens
de perder de vista! Para além deste, ainda subi os 584 degraus que levam ao
Templo Hanuman para conhecer uma nova espécie de primatas e, uma vez mais,
admirar a vista sobre os montes e vales fantásticos em toda a área circundante.
Ao chegar à cidade, olhando para o exterior a partir do autocarro que saíra
de Hospet, pensei que este sítio poderia ser para a Ásia, como Atenas é para a
Europa. Agora que já palmilhei estas colinas e vales, vêem-me à memória imagens
dos antigos desenhos animados “Flintstones” ou “Em Busca do Vale Encantado”.
Posso imaginar os nossos antepassados a viver em grutas esculpidas nas
rochas... Ou mesmo dinossauros a percorrer este rio antes de encontrarem o seu
próprio paraíso. Cada imagem que vejo, cada sítio para onde olho, faz –me pensar
que este seria o cenário perfeito para qualquer filme! Mas claro que antes de
mim, muitos outros também o pensaram. E Hampi não só já foi palco de vários
sucessos cinematográficos, como também fonte de inspiração a muitas palavras na
história da Índia!
Quanto a mim, seguiu-se um passeio pelos templos mais famosos. Porque seria
impossível conhecer todos eles num só dia. Penso que nem um mês em Hampi seria
suficiente para ver as centenas de obras de arte que foram trabalhadas sobre as
rochas há tantos, tantos anos atrás. E já que passou a ser restritamente
proibido o aluguer de veículos a motor, qual não seria a melhor forma de
fazê-lo senão na companhia de um dos muitos condutores de tuk-tuks. Assim,
comecei pelo Museu Arqueológio de Hampi – onde um bilhete de 250 rupias abrange
tudo o que há para ver – e prossegui caminho pelos vales rochosos, coqueiros e
bananeiras até regressar ao centro da vila, 8 km mais à frente. Entre caminhos
de terra batida e paisagens de cortar a respiração, dei por mim a imaginar as
batalhas que aqui se travaram e a forma como esse fenómeno que é a história e o
tempo, acabaram por destruir grande parte do que existia. Ainda assim, continua
a ser possível observar a grandiosidade do que aqui existia, entre os templos
de Ganesha, os palácios, as zonas de banho reais e até os grandes estábulos
para elefantes.
Claro que o meu dia de aniversário não ficou completo antes de conhecer o
Apurva, um viajante indiano que estava a partilhar a sua música no restaurante
Funky Monkey. Apurva levou-me a experimentar a última actividade imperdível de
Hampi. Mesmo antes do pôr do sol dirigímo-nos ao rio, por trás da rua do
mercado. Juntando bambu, plástico e folhas de palmeira, estes homens que são
artesãos sem o saber, construíram pequenas embarcações circulares que levam os
turistas a admirar novas paisagens, enquanto relaxam a salvo dos crocodilos!
Sem dúvida uma das melhores formas de observar o dia a chegar ao fim e conhecer
mais alguns dos templos que há para ver.
Ao trepar para o topo de uma das maiores rochas, descobri um pequeno
templo, esculpido por baixo dos meus pés. Um templo que representa a
sexualidade do homem e da mulher. Porque algum Deus, já há tantos séculos
atrás, soube ter a sensibilidade de saber que a mulher, tal como o homem, pode
ter muitos companheiros ao longo da sua vida. Que isso é não só natural, como
também é um direito da humanidade. Mas o mais importante é que no fim – ou no
centro – cabe apenas um! O maior, o grande amor da vida de alguém. E por causa
dessa figura central, todos os outros encontros se transformam em experiências
muito menos profundas ou importantes.
Mais à frente, vi outra figura de uma vaca esculpida nas rochas. Uma figura
que nunca mais irá passar despercebida aos meus olhos. Porque quem não sabe é
como quem não vê. Mas quem aprende nunca mais pode esquecer! Foi assim que ouvi
mais uma das muitas histórias dos Deuses da Índia. E é depois deste dia que sei
que junto de qualquer templo dedicado a Shiva, existirá uma vaca esculpida numa
rocha! Porque um dia, quando Shiva estava a meditar num dos lugares onde mais
gostava de meditar, sentiu um enorme desejo. Um desejo carnal. E decidiu entrar
em contacto com a sua mulher para que fosse até lá, para fazer amor com ele.
Esperou por ela algum tempo e, quando finalmente não conseguia esperar mais,
foi até à rua ver se a via. Estava de tal forma cego de desejo que acabou por
ter sexo com uma vaca que estava sentada à entrada do local. E só depois de
satisfeito com o momento se apercebeu de que havia tido sexo com o animal
sagrado. Assim, por respeito à vaca com a qual havia tido sexo e também à sua
mulher, que amava, junto de todos os templos de Shiva passou também a existir a
representação dessa vaca.
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