13 April 2015

A velha Hampi!


A minha primeira coisa favorita em Hampi foi a vista do autocarro, todo o caminho até chegar a Hampi.
A minha segunda coisa favorita em Hampi foi... Hampi!









Declarado Património Mundial pela UNESCO em 1986, o Conjunto Monumental de Hampi é uma vila perto de Hospet, no estado indiano de Karnataka. A cerca de 7 horas de Bangalore e 10 horas de Goa, este é um destino comum à maioria dos viajantes estrangeiros, que se vêem atraídos pela sua beleza natural, mais de 500 monumentos (só no centro existem cerca de 350 templos!) e atmosfera “hippie”. Existem também fortificações, um vasto e muito elaborado sistema de irrigação, esculturas, pinturas, estábulos, palácios, jardins, mercados, etc. Uma coisa é certa, o seu carisma e fotogenia vale mais do que aquilo que posso descrever. De certa forma – e apesar de ser visualmente totalmente diferente – o ambiente de Hampi e aquilo que interpreto como sendo um “backpacker’s paradise”, faz-me lembrar a vila de Pai, no norte da Tailândia.
A primeira coisa que ouvi sobre o alojamento neste destino foi “quando chegares à estação, atravessa para o outro lado e arranja um hotel lá, não fiques do lado de cá”. Ora bem... o que será que “cá” e “lá” significa, fiquei eu a pensar!? E claro que quando o autocarro parou e dei uma volta de 360º à procura de algum que me fizesse pensar em “o outro lado”, mas nada. Acabei por encontrar um quarto barato (200 rupias por noite em época baixa) na “Ravi Guest House", por baixo do restaurante “Hampi Roof”, que fica na pequena vila junto ao rio. Pouco faltou para descobrir que “o outro lado”, era o outro lado do rio. Aparentemente é a zona preferida dos viajantes. Um lugar mais “hippie” e “trendy” e provavelmente mais calmo. A passagem de barco dura poucos minutos, custa apenas 10 rupias e funciona deste manhã cedo até às cinco da tarde. Verdade seja dita que, se por acaso não apanhares o último barco, a única forma de atravessar o rio está a uma hora de distância. De qualquer forma, a zona histórica fica “do lado de cá” e por isso não me fez confusão nenhuma ter percebido que me enganei!






“Do lado de lá do rio” fica Anegundi e, para qualquer viajante, é completamente indispensável visitar ambas as margens. Anegundi tem vistas fascinantes e também vários monumentos interessantes, embora não seja um destino tão procurado como Hampi!
Assim, a primeira coisa a fazer depois de completa a curta travessia no barco-taxi, é alugar uma scooter ou mopet para o dia. Vale a pena conduzir até ao lago onde “é proibido nadar devido aos crocodilos” e apreciar as paisagens de perder de vista! Para além deste, ainda subi os 584 degraus que levam ao Templo Hanuman para conhecer uma nova espécie de primatas e, uma vez mais, admirar a vista sobre os montes e vales fantásticos em toda a área circundante.








Ao chegar à cidade, olhando para o exterior a partir do autocarro que saíra de Hospet, pensei que este sítio poderia ser para a Ásia, como Atenas é para a Europa. Agora que já palmilhei estas colinas e vales, vêem-me à memória imagens dos antigos desenhos animados “Flintstones” ou “Em Busca do Vale Encantado”. Posso imaginar os nossos antepassados a viver em grutas esculpidas nas rochas... Ou mesmo dinossauros a percorrer este rio antes de encontrarem o seu próprio paraíso. Cada imagem que vejo, cada sítio para onde olho, faz –me pensar que este seria o cenário perfeito para qualquer filme! Mas claro que antes de mim, muitos outros também o pensaram. E Hampi não só já foi palco de vários sucessos cinematográficos, como também fonte de inspiração a muitas palavras na história da Índia!






Quanto a mim, seguiu-se um passeio pelos templos mais famosos. Porque seria impossível conhecer todos eles num só dia. Penso que nem um mês em Hampi seria suficiente para ver as centenas de obras de arte que foram trabalhadas sobre as rochas há tantos, tantos anos atrás. E já que passou a ser restritamente proibido o aluguer de veículos a motor, qual não seria a melhor forma de fazê-lo senão na companhia de um dos muitos condutores de tuk-tuks. Assim, comecei pelo Museu Arqueológio de Hampi – onde um bilhete de 250 rupias abrange tudo o que há para ver – e prossegui caminho pelos vales rochosos, coqueiros e bananeiras até regressar ao centro da vila, 8 km mais à frente. Entre caminhos de terra batida e paisagens de cortar a respiração, dei por mim a imaginar as batalhas que aqui se travaram e a forma como esse fenómeno que é a história e o tempo, acabaram por destruir grande parte do que existia. Ainda assim, continua a ser possível observar a grandiosidade do que aqui existia, entre os templos de Ganesha, os palácios, as zonas de banho reais e até os grandes estábulos para elefantes.





















Claro que o meu dia de aniversário não ficou completo antes de conhecer o Apurva, um viajante indiano que estava a partilhar a sua música no restaurante Funky Monkey. Apurva levou-me a experimentar a última actividade imperdível de Hampi. Mesmo antes do pôr do sol dirigímo-nos ao rio, por trás da rua do mercado. Juntando bambu, plástico e folhas de palmeira, estes homens que são artesãos sem o saber, construíram pequenas embarcações circulares que levam os turistas a admirar novas paisagens, enquanto relaxam a salvo dos crocodilos! Sem dúvida uma das melhores formas de observar o dia a chegar ao fim e conhecer mais alguns dos templos que há para ver.





 




Ao trepar para o topo de uma das maiores rochas, descobri um pequeno templo, esculpido por baixo dos meus pés. Um templo que representa a sexualidade do homem e da mulher. Porque algum Deus, já há tantos séculos atrás, soube ter a sensibilidade de saber que a mulher, tal como o homem, pode ter muitos companheiros ao longo da sua vida. Que isso é não só natural, como também é um direito da humanidade. Mas o mais importante é que no fim – ou no centro – cabe apenas um! O maior, o grande amor da vida de alguém. E por causa dessa figura central, todos os outros encontros se transformam em experiências muito menos profundas ou importantes.
Mais à frente, vi outra figura de uma vaca esculpida nas rochas. Uma figura que nunca mais irá passar despercebida aos meus olhos. Porque quem não sabe é como quem não vê. Mas quem aprende nunca mais pode esquecer! Foi assim que ouvi mais uma das muitas histórias dos Deuses da Índia. E é depois deste dia que sei que junto de qualquer templo dedicado a Shiva, existirá uma vaca esculpida numa rocha! Porque um dia, quando Shiva estava a meditar num dos lugares onde mais gostava de meditar, sentiu um enorme desejo. Um desejo carnal. E decidiu entrar em contacto com a sua mulher para que fosse até lá, para fazer amor com ele. Esperou por ela algum tempo e, quando finalmente não conseguia esperar mais, foi até à rua ver se a via. Estava de tal forma cego de desejo que acabou por ter sexo com uma vaca que estava sentada à entrada do local. E só depois de satisfeito com o momento se apercebeu de que havia tido sexo com o animal sagrado. Assim, por respeito à vaca com a qual havia tido sexo e também à sua mulher, que amava, junto de todos os templos de Shiva passou também a existir a representação dessa vaca.





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